Dona Luiza, nessa época, ainda estava na ativa. Entenda-se que em Lagoa (e na maioria dos pequenos municípios do interior) há 5 ocupações disponíveis para as mulheres na então faixa etária da minha mãe: 1) funcionária pública (prestes a se aposentar); 2) comerciante; 3) dona de casa; 4) aposentada; 5) beata. Obviamente que se pode acumular duas (ou mais) ocupações. Mainha, por exemplo, era funcionária pública no expediente da manhã. À tarde era dona de casa. E à noite, beata, claro! Via de regra, no turno da noite quase todas as mulheres são beatas, pela absoluta falta do que fazer. Para as mulheres mais novas, além das opções já citadas, podemos acrescentar: 6) funcionária da Usina Petribu*; 7) estudante; 8) periguete.

Foto extraída do site oficial do município.
E para que vocês entendam o que aconteceu, preciso contextualizar o momento:
- Era ano de eleição de prefeito. E o atual era candidato a reeleição. Mainha, trabalhando na Prefeitura, tinha que votar (e torcer) por ele, pelo bem do seu cargo de confiança.
- Meu tio apoiava o outro candidato (sem ser o da minha mãe) e também era candidato a vereador, porém sem muitas chances. Mas a gente, família, dava a maior força e acreditava (!). Olha só a confusão. Óbvio que a gente ia votar no meu tio, mas não ia votar no prefeito dele (que a gente chamava de “maldito” ou “filho do demo”). E titio não gostou da idéia. Afinal, vereador sem prefeito não faz nada!!! Nossa relação familiar ficou meio abalada com esse episódio...
- O candidato mais lembrado nas pesquisas, caso alguém fizesse uma pesquisa lá, era o do meu tio, portanto não tinha o voto de Mainha e nem o meu, já que eu era eleitora local e votava em quem Mainha mandasse....ahahaha.
- Minha irmã, Simone, trabalhava no Fórum (já já você vai entender a relevância dessa informação! Hehehe)
Esse era o cenário básico...Mas, sério...alguém aí tem noção de como funciona uma eleição de prefeito numa cidade minúscula como Lagoa?? Tipo 20 mil habitantes? Vocês não imaginam como o negócio é podre...quer dizer...é redundante dizer que há algo podre envolvendo política, né? Mas em cidade pequena eleve o negócio à 5ª potência! É chapa quente!!! Baixo nível! Ok, ok...continuo sendo redundante...Em Lagoa, até então, havia sempre um candidato apoiado pela Usina Petribu (extrema direita, de partidos tipo o extinto PDS...vixe...naquela eleição esse candidato era o do meu tio) e o outro candidato era do PMDB (no caso o da minha mãe)! Ahahahahaha....desde que me entendo por gente, a briga era essa! De lá pra cá não tem mais isso de esquerda, direita, centro...o que vale são as alianças pra ganhar a disputa.
Nosso apoio ao candidato da situação era notório, porém velado. Não fizemos campanha, não colamos cartazes na porta de casa, não usamos camiseta nem boné, não acompanhamos carreatas, não fomos a comícios. Mas todo mundo sabia em quem a gente ia votar.Por outro lado, não podíamos participar ativamente da campanha do meu tio. Apesar do apoio “por debaixo dos panos”.
Chegou o dia da eleição.
Uma comédia.
Toda a população da cidade, inflada pelos eleitores que não moravam lá, tipo eu (que tirei o meu título lá e demorei pra transferir pra Recife) e todos os funcionários da Usina Petribu, que tinham Lagoa como domicílio eleitoral - passavam o dia inteiro circulando pra lá e pra cá, observando o movimento...e esperando uma confusão. E sempre tinha confusão. Material de campanha apreendido, gente detida por fazer boca de urna, bêbados errando de seção...acontecia de tudo!
Lá em casa fizemos um bolo, para receber os parentes que porventura resolvessem nos visitar (vários tios meus moravam em sítios, longe do chamado “centro”). A gente morava na rua principal (endereço vip!) e pra quem estava no vai-e-vem era obrigatório passar em frente à nossa porta. Mainha saiu cedo pra votar e eu fiquei em casa, sozinha. Aí chegava um primo, entrava, comia um pedaço de bolo, tomava um copo de água e ia embora. Daqui a pouco, uma tia...o filho do primo, a esposa do cunhado do tio, o filho do sobrinho da irmã da madrinha...e por aí vai. Um bolinho, uma aguinha e tchau. Aí, de repente, batem na porta. Era um oficial de justiça (em dia de eleição esse povo toma um ar desgraçado...se acham a bala que matou Kennedy!). O moço olha pra minha cara e fala:
- A senhorita está presa!
E eu falei:
- Hã?? Como...como assim?
- Recebemos uma denúncia que a Senhorita está alimentando eleitores em troca de votos!!!
Segurei uma gargalhada nervosa...minha gagueira deu o ar de sua graça...as pernas ficaram bambas...
E o cara continuou falando:
- Vamos mantê-la em prisão domiciliar até o final do escrutínio!!
Ainda por cima o desgraçado falava difícil...
Antes que eu pudesse começar a chorar, Mainha chegou metendo a mão na porta...provavelmente já informada do acontecido. Esse tipo de notícia voa, né?
Ela quase voou no pescoço do oficial de justiça, que foi logo pedindo pra ela se acalmar. E ela:
- Acalmar coisa nenhuma. Isso é um absurdo. Ninguém aqui está dando comida pra ninguém.
E eu já pensando que ia ser demitida do Bandepe pela minha ficha corrida na polícia...
Simone, que chegou logo atrás dela, entrou no circuito:
- Mainha, calma. Fale baixo. Ele é um oficial de justiça.
E ela:
- Falar baixo uma ova.
E segurou no braço do cara, arrastando-o para a cozinha.
- Venha aqui no meu fogão. Venha ver o que eu cozinhei hoje pro almoço.
E destampou duas ou três panelas vazias (daquelas de alumínio areado, com as tampas amassadas e tal).
- Tá vendo? Não tem nada aqui...só esse bolo de laranja. Tem certeza que o Sr. vai prender a minha família em casa? Eu não me chamo Luiza se não sair de casa agora mesmo.
E o oficial de justiça:
- Dona Luiza, solte o meu braço. Eu posso deter a Senhora de verdade.
Eu, a essa altura, chorava copiosamente. E falava baixinho:
- Mainha...solta o moço. Eu não quero ir pra cadeia...amanhã eu tenho que trabalhar...snif...snif...
Nesse meio tempo Simone saiu correndo até o fórum (acho que foi a maior carreira que ela já deu na vida!) e voltou com outro oficial de justiça, amigo dela. Esse santo moço tirou o outro lá de casa, apaziguou os ânimos e contou que a denúncia fora feita pelos correligionários do “coisa ruim”. Passamos o resto do dia pra recuperar os batimentos cardíacos e remoer a raiva. Nunca passei um nervoso tão grande. Volta e meia pensava na minha pessoa atrás das grades, sentada no chão frio, cercada por mal-elementos me encarando...
No fim do dia, o prejuízo foi total. O candidato da oposição foi eleito com uma enorme diferença de votos e meu tio não conseguiu chegar lá. Tristeza em dobro. Antes das 19 horas a carreata da vitória já estava nas ruas...
Bjs a todos e bom voto no dia 31!!!
* A Usina Petribu S/A está localizada no município de Lagoa de Itaenga, onde há quase três séculos a família Petribu se instalou. Ficando à frente o Sr. Paulo de Cavalcanti de Petribu durante mais de sessenta anos, a Petribu tornou-se uma das maiores usinas do Estado e é referência no setor há quase um século. Com uma área industrial de 250 mil m² e uma área plantada de 22 mil hectares próprios, além de 10 mil hectares de fornecedores, sua capacidade de moagem/dia é de 8.500 toneladas, produzindo diariamente 18 mil sacas de açúcar de 50 kg e 200 mil litros de álcool. FONTE: www.petribu.com.br
3 comentários:
Aninha, imagine vc pobre inocente sendo encarada pelos jagunços na prisão...ôh dó!!! Essa história é sensacional!!! Fiquei com mais vontade de conhecer mainha e Simone!!! rsrs...
Aninha, chorei de tanto rir!!!!!! Eu sei exatamente o que é isso porque minha avó mora numa cidadezinha do interior do Paraná com as mesmas características da sua família!!!!
Já presenciei tapas entre os tios e primos, mas sinceramente, nunca, nunca ninguém levantou voz de prisão pra mim!!!! ahahahahaha
Bom demais relembrar isso!!!
bjoss
Aninha,
Será que seus amigos bancários levarian cigarro para você ?
Mais uma vez, ri muito.
Parabéns !!!
Postar um comentário