Escrevi esse texto no dia 4 de dezembro de 2009, logo após chegar ao Banco. Era a primeira semana no novo local de trabalho, a luxuosa e moderna Torre Santander, às margens do Rio Pinheiros, vizinha da Daslu. Vocês acreditam que no dia seguinte ele tinha virado texto anônimo na internet? Luxo e riqueza...É longo, mas vale a pena ler, pra você ter uma ideia do que eu passei. Um beijo.
Acordei no meu novo horário de acordar: 5:20. Céu escuro, friozinho...deixei os lençóis e fui tomar banho.
Por algum motivo obscuro, que ainda vou apurar, demorei demais no banho e isso me fez perder o fretado que sai da Barra Funda às 6:35 e passa no Sumaré às 6:45. Fiquei tranqüila porque ainda tinha o fretado que sai das 6:40 da BF e chega ao Sumaré às 6:50 / 6:55. O bendito ônibus apareceu e passou direto, acreditem se quiser. E acho que eu era a única pessoa do Banco esperando... Com cara de boba, “rosa chiclete”, fiquei pensando o que fazer por alguns minutos. O próximo fretado só passaria às 8 horas. Eram, tipo, 7:15... Resolvi testar a alternativa da Ponte Orca + trem. Com algum medo no coração e muita disposição nas pernas (tudo pra ganhar alguns minutos e não ficar negativa no ponto eletrônico), voltei pro metrô, peguei na direção da Vila Madalena e lá começou o terror...É A TREVA, MINHA GENTE!
Primeiro que eu não sabia pra que lado ir...a sinalização existe, mas pra quem estava tomada pelo medo, confesso que me atrapalhei e fiquei como uma aparvalhada olhando para os lados, procurando uma placa, uma faixa, um cartaz, qualquer coisa que pudesse me indicar pra que lado ir. “Onde fica esse raio de Ponte Orca?”, pensei. E nesse momento fiquei alguns segundos pensando o que seria Ponte Orca: uma ponte com um monte de orcas embaixo? Obviamente não seriam orcas de verdade. Talvez algumas estátuas de orca enfeitando o local, sei lá. De repente vi um cartaz: “Para utilizar a Ponte Orca, retire seu bilhete antes de sair das catracas”. Fui ao local indicado, retirei o bilhete (tem um guichê com um moço que fica arrumando os bilhetes numa bancada...à medida que o pessoa vai pegando, ele vai repondo...Profissão: “Arrumador de Bilhetes da Ponte Orca”) e segui o fluxo. Só pra garantir, perguntei a um transeunte e ele me indicou uma fila enorme de pessoas, que de 20 em 20 pegavam umas vans simpáticas (tem um moço que fica controlando a entrada das pessoas nas vans...Profissão: "Orientador de Filas da Ponte Orca"). A fila anda bem rápido porque são muitas vans...quando a lotação esgota, ela vai embora e chega outra logo em seguida. O trajeto dura exatos 15 minutos. E com a graça de Deus as pessoas guardaram silêncio dentro do veículo....Imagina 20 pessoas conversando ao mesmo tempo sobre assuntos diversos durante 15 minutos, num ambiente com precária circulação de ar...foi assim que a gripe suína virou epidemia. Imagina um cristão espirrando ali dentro...
Bom! Chegamos ao ponto final da Ponte Orca. Peraí...cadê a Ponte? E cadê as orcas? Reais ou estátuas, as orcas não existem. Muito menos ponte. Sinceramente, preciso que alguém me explique porque batizaram esse momento mágico, esse traslado, de Ponte Orca. Desculpem esse adendo, mas não resisti. É bizarro ou não é???
Well...saindo da van, novamente estou eu, aparvalhada, sem saber pra que lado ir. Um transeunte novamente me deu a dica: “A senhora vai reto, entra à direita, sobe a escada, vai até o fim da passarela e chega no trem.” Ah, bom...fácil. E lá vou eu seguindo o fluxo novamente. A subida da escada é surreal...cheiros de esgoto e Rexona vencido se misturam. E quando chega na passarela, reze para que nenhum apressado lhe dê um empurrão mais forte, que fará você cair lá embaixo. A essa altura estava tão aterrorizada que não sei dizer a vocês o que estava embaixo da passarela (um rio? uma avenida? Um lixão?). O movimento me fez apressar o passo (na verdade, quase corri...), até que cheguei à estação Cidade Universitária da CPTM. Nessa hora me dei conta que há um sistema muito bem organizado para manter a Ponte Orca funcionando. Além dos motoristas das vans, do Arrumador de Bilhetes e do Orientador de Filas, tem um moço recolhendo o bilhete que pegamos na Vila Madalena, quando passamos na catraca pra entrar na estação. Na verdade ele fica somente tomando conta de uma caixa de sapato, devidamente encapada com papel de encadernação (aquele marron) e posicionada em cima da catraca. O pessoal passa, deposita o bilhete na caixa e vai embora. E no sentido contrário, ou seja, as pessoas que estão saindo do trem e se digirindo às vans, tem outro moço entregando o dito bilhete. Esse bilhete é o que nos dá direito a usar o metrô e o trem sem precisar pagar nova passagem. Viva o Kassab!
Olha...admirei o sistema da Ponte Orca. Sério. Apesar de tudo...
Retomando, cheguei à plataforma do trem. Visão desoladora. Assim como eu, dezenas e dezenas de pessoas, totalmente assanhadas, suadas e cansadas, se apinhavam à espera do transporte coletivo. Tenho certeza que todo mundo tomou banho antes de sair de casa, mas àquela altura, cadê o sinal das essências utilizadas depois do chuveiro? Meu Dove “rollon “ já era...assim como as gotas de Acqua de Gió que borrifei atrás das orelhas e nos punhos. Queria mais era dar um mergulho naquele rio bonito que passava à minha frente, pra ver se o calor diminuía. Sim, depois de tudo que eu havia passado, aquele rio tava convidativo....
Pela terceira vez, um transeunte me orientou, dessa vez sobre em qual lado eu deveria pegar o trem (seria para a direção Grajaú...do outro lado ia pra Osasco...ou era o contrário??? ). Exatos 12 longos minutos depois, lá vem o dito. Quando ele passou por mim, subiu um bafo...aquele bafo quente indescritível...A TREVA.... Olhei pra dentro do trem..tudo preto...não dava pra ver o outro lado. Pensei: “eu entro nesse trem, nem que eu entre por entre as pernas da galera...”. Eu não ia ficar mais 12 minutos esperando naquele cenário. Quando a porta abriu, umas 3 pessoas desceram e subiram umas 36...37 comigo. Aquela visão das pessoas descabeladas, suadas e cansadas novamente estava lá...só que pior...o desânimo também estava lá...e Rexonas, Doves, Axes e Speed Sticks vencidos. Nossa mãe...mas quem tem culpa??? Abstraí...e percebi que o trem se movimentava a 2Km por hora. Uma tartaruga manca, jogada no rio bonito e se livrando do lixo era mais rápida. Viagem sem fim...O fim dos tempos...Lata de sardinha...Abstraí de novo e vi que num dos cantos próximos de onde eu estava não tinha banco. Acho que foi arrancado pra dar lugar aos corpos de pé...e o chão estava todo molhado...Não me perguntem de que...Talvez o rio bonito tenha invadido o vagão no dia anterior...Mas ontem choveu tanto assim???
Contei os minutos e segundos para chegar na minha estação. Exatos 14 minutos depois, lá estou eu descendo na Vila Olímpia. De novo as escadas, a passarela (sobre a bela e engarrafada Marginal)...Peguei a saída Nações Unidas e me dirigi à Torre. Olhei o relógio: 8:30 em ponto. Se eu tivesse esperado o próximo fretado lá no Sumaré (que sai da BF às 7:40), estaria chegando naquele momento ao ponto final. Ahahahahah...risada irônica pra mim mesma!
Quando senti o ar condicionado do hall de entrada do Banco, pensei: “Deus existe!!!”. E aproveitando que me lembrei de Deus, fiz uma pequena prece naquele momento. Agradeci pelo meu emprego, pelo metrô fofo de cada dia (com escada rolante, sem passarelas ao ar livre e às vezes até com ar condicionado...), pelo fretado maravilhoso que o Banco me disponibiliza (apesar do motorista f!@#$%¨&*) e por tudo o mais que tenho na vida. Rezei também pelas pessoas que todos os dias passam pelo que eu passei hoje. Que elas tenham força e disposição sempre! E também que tenham muito bom humor...afinal, sem bom humor não dá pra seguir em frente, né?
Finalizando, ratifico:
- Não tenho nada contra as profissões aqui citadas. Sou uma cidadã e respeito as pessoas independente do seu ofício. Até porque todos eles têm sua importância. Imagina o que seria dos paulistanos sem o sistema de manutenção da Ponte Orca?
- Ninguém tem culpa de ficar com desodorante vencido. O meu também venceu hoje...
- Fazer ginástica é totalmente desnecessário para quem enfrente metrô + Ponte Orca + trem diariamente. Tenho certeza que perdi 500 calorias hoje de manhã.
- Um afeto especial aos transeuntes que me orientaram nos momentos de dúvida.
E amanhã, acho que vou acordar 20 minutos mais cedo...
2 comentários:
Aninha, mais uma vez você: Você é uma escritora brilhante e com um humor refinado, continue nos brindando com seus textos cheios de vida, energia e encanto.
Beijos,
Sandra Rocha
San, super obrigada! Um beijão.
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